quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

PAPAI NOEL: Barba caída, vira-latas e um saco vazio - por fabrício alves

Neste sujo e pobre país de terceiro mundo, o Papai-Noel, mais do que um “bom-velhinho” símbolo do capitalismo, é, para a maior parte da população, símbolo do nada, símbolo de dias em que uma pequena parte de nossa sociedade desigual se diverte, juntamente com suas crianças, enquanto a maior parte apenas tenta sobreviver e o que é pior, diante de presentes e felicidades intangíveis que inundam os meios de comunicação cada vez mais acessíveis.O papai-noel moderno e suas representações agravam ainda mais o sentimento de pobreza, miséria, solidão e tristeza, numa época em que se ressalta justamente o inverso disso, a alegria, a abundância, enfim, o espírito natalino que hipnotiza as pessoas de uma maneira que nem George Orwell imaginaria na época em que escreveu sua obra “1984”.

Papai-noel é um grande-irmão sazonal, que ataca nos meses de dezembro, num período de comemorações cristãs, onde os presentes dados representam a alegria do nascimento de Jesus Cristo, que se vivesse neste admirável mundo novo ao qual fazemos parte, seria mais um dos excluídos e que ganharia no máximo algumas balinhas do “bom-velhinho”. Ele não entra nas favelas, pelo menos não a versão clássica, que distribui videogames, DVDs, carrinhos de controle remoto e bonecas que andam, falam e se vestem muito melhor que as crianças que recebem o bom-velhinho pobre, terceiro mundano, versão básica, de barba caída, as renas transformadas em vira-latas moribundos e um saco vazio, cheio de presentes imagináveis. Este sim, que é o verdadeiro espírito natalino da nossa sociedade.

O Natal moderno representa um sonho, um mundo irreal criado para divertir as pessoas, pelo menos aquelas pessoas a quem se interessa divertir, aquelas que possuem o poder de decisão e compra, aquelas cujas mentes influenciam outras a manterem o sistema como está, que incentivam a aceitação da irrealidade e ainda colocam isso como algo positivo e correto. Não se contesta aqui a união e a felicidade, mas sim, a união e a felicidade comprada, cega e ignorante, que agrada poucos e fere milhões. E como no fim, torturados ou não, todos se entregam e se submetem ao grande-irmão, papai-noel vence mais uma e ataca com força total, aliado da mídia e de todos os veículos de comunicação possíveis e imagináveis, nos induz a gastar dinheiro com presentes que agradam a parcela “cega porém feliz” da população, mantendo vivo todo o esquema de exclusão social e marginalização da maioria, mantendo tudo como está, até que chegue o outro ano, e depois outro, renascendo das trevas e renovando eternamente o ciclo.

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