sexta-feira, 16 de novembro de 2007

(la muerte) - poema de ewaldo schleder




o coração dos mortos
bate outra vez
e o dos vivos
aperta

os vivos
visitam os mortos
porque morte é coisa certa



DEFINIÇÃO DE ANARQUIA - por errico malatesta (1907)

Anarquia é uma palavra grega que significa literalmente "sem governo", isto é, o estado de um povo sem uma autoridade constituida. Antes que tal organização começasse a ser cogitada e desejada por toda uma classe de pensadores, ou se tonasse a meta de um movimento, que hoje é um dos fatores mais importantes do atual conflito social, a palavra "anarquia" foi usada universalmente para designar desordem e confusão. Ainda hoje, é adotada neste sentido pelos ignorantes e pelos adversários interessados em distorcer a verdade. Não vamos entrar em discussões filológicas, porque a questão é histórica e não filológica. A interpretação usual da palavra não exprime o verdadeiro significado etimológico, mas deriva dele. Tal interpretação se deve ao preconceito de que o governo é uma necessidade na organização da vida social. O homem, como todos os seres vivos, se adapta às condições em que vive e transmite , através de herança cultural, seus hábitos adquiridos. Portanto, por nascer e viver na escravidão, por ser descendente de escravos, quando começou a pensar, o homem acreditava que a escravidão era uma condição essencial à vida. A liberdade parecia impossível. Assim também o trabalhador foi forçado, por séculos, a depender da boa vontade do patrão para trabalhar, isto é, para obter pão. Acostumou-se a ter sua própria vida à disposição daqueles que possuíssem a terra e o capital. Passou a acreditar que seu senhor era aquele que lhe dava pão, e perguntava ingenuamente como viveria se não tivesse um patrão. Da mesma forma, um homem cujos membros foram atados desde o nascimento, mas que mesmo assim aprendeu a mancar, atribui a estas ataduras sua habilidade para se mover. Na verdade, elas diminuem e paralisam a energia muscular de seus membros. Se acrescentarmos ao efeito natural do hábito a educação dada pelo seu patrão, pelo padre, pelo professor, que ensinam que o patrão e o governo são necessários; se acrescentarmos o juiz e o policial para pressionar aqueles que pensam de outra forma, e tentam difundir suas opiniões, entenderemos como o preconceito da utilidade e da necessidade do patrão e do governo são estabelecidos. Suponho que um médico apresente uma teoria completa, com mil ilustrações inventadas, para persuadir o homem com membros atados, que se libertar suas pernas ou mesmo viver. O homem defenderia suas ataduras furiosamente e consideraria todos que tentassem tira-las inimigos. Portanto, se considerarmos que o governo é necessário e que sem o governo haveria desordem e confusão, é natural e lógico, que a anarquia, que significa ausência de governo, também signifique ausência de ordem. Existem fatos paralelos na história da palavra. Em épocas e países onde se considerava o governo de um homem (monarquia) necessário, a palavra "república" (governo de muitos) era usada exatamente como "anarquia", implicando desordem e confusão. Traços deste significado ainda são encontrados na linguagem popular de quase todos os países. Quando esta opinião mudar, e o público estiver convencido de que o governo é desnecessário e extremamente prejudicial, a palavra "anarquia", justamente por significar "sem governo" será o mesmo que dizer "ordem natural, harmonia de necessidades e interesses de todos, liberdade total com solidariedade total". Portanto, estão errados aqueles que dizem que os anarquistas escolheram mal o nome, por ser este mal compreendido pelas massas e levar a uma falsa interpretação. O erro vem disto e não da palavra. A dificuldade que os anarquistas encontram para difundir suas idéias não depende do nome que deram a si mesmos. Depende do fato de que suas concepções se chocam com os preconceitos que as pessoas têm sobre as funções do governo, ou o "Estado" como é chamado.

PALAVRAS - poema de edilson del grossi e thadeu wojciechowski

misturando as letras do alfabeto
meu coração escreveu teu nome
num estranho dialeto


consoante as vogais
nossos encontros
consonontais


eu estava tritongo
perdido entre seus bilabiais


um sujeito com tantos predicados
dando mole pras figurinhas
difíceis de linguagem

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

NIETZSCHE, FOUCAULT e a HISTÓRIA - por viegas fernandes da costa.

A história da humanidade constitui-se como uma mancha formada por um líquido qualquer que se derrama por uma superfície plana: não tem direção, espalha-se sem sentido para todos os lados. No entanto, procura-se sempre a direção futura da nossa raça e as forças que a impulsionam, seu passado fundante e seu futuro redentor. O paraíso reconstruído é a promessa constanteEm seu artigo, "Nietzsche, a genealogia e a história" (In. MICROFÍSICA DO PODER), Michel Foucault faz uma breve análise dos conceitos genealógicos desenvolvidos por Friedrich Nietzsche no século XIX, e mostra que o Ocidente inventa a história, por ele chamada de ascética, para encontrar no passado o momento fundante de sua unidade, de sua identidade. Uma Europa necessitada de um povo coeso, envolvida no caldo das lutas nacionalistas, vai buscar, e não encontrando inventa, o elemento ordenador que trará tranqüilidade existencial aos seus povos. E é neste momento que emerge o ideal ascético do historiador que, como escreve Foucault, deveria "imitar a morte para entrar no reino dos mortos"; ideal ascético que vem acompanhado pelo discurso científico que dá à história a "objetividade" e o título de ciência que reconstrói a "verdade". O historiador não fala e não sente, apenas percebe o ocorrido e o narra, "inocente", presenteando a humanidade com suas raízes.Esta forma de historiar, tradicional, insere-se na mentalidade própria do momento em que emerge, que é marcado pela modernidade. O pensamento moderno é linear e teleológico: indica um princípio, um desenvolvimento, um fim último, um ponto de chegada, o ápice da realização humana. Tal pensamento, o da modernidade, permite a constituição de um saber histórico que trará um sentimento de segurança aos sujeitos humanos: conhecemos as nossas raízes, o solo em que pisamos, para onde vamos e o que queremos fazer; inventamos a tradição e nos agarramos a ela com todas as nossas forças. E este, então, o discurso da "história moderna", e ao qual se opõe a genealogia, que identifica no acontecimento, na emergência do novo, a regra da dispersão, a heterogeneidade, permitida pelos conflitos existentes naquela realidade. A genealogia não é a história, mas faz uso dela para identificar o "acontecimento" e a dispersão de forças que se encontram presentes no momento da "emergência do acontecimento". Mas assim como a genealogia faz uso da história, pode-se dizer que a história se apropria dos elementos genealógicos, inserindo-se em uma estrutura de pensamento diferente da moderna, em uma estrutura de pensamento que chamaremos de pós-moderna.Falar em pensamento pós-moderno, ou em pós-modernidade, é enveredar por uma temática cujos conceitos ainda não estão bem definidos, o que gera muitos conflitos e deturpações do termo. Como não é objetivo deste discutir a pós-modernidade propriamente dita, coloca-se apenas que o pensamento pós-moderno é aqui compreendido como aquele que se opõe à proposta da modernidade acima apresentada. Portanto, falar em "história pós-moderna" é falar de um saber histórico organizado, mas não fechado, que rompe com a proposta linear de história; um saber que passa a trabalhar com conceitos como os de descontinuidade, ruptura, subjetividade. É fazer uso do saber histórico não no sentido de compor grandes unidades nas quais os indivíduos possam se reconhecer, mas no sentido de encontrar a heterogeneidade, a luta entre as forças que surgem de todos os lados e que constituem novos acontecimentos. É questionar a tradição, a origem e o devir. E é neste sentido que Michel Foucault fala em "história efetiva", apropriando-se ainda dos conceitos nietzscheanos, que é justamente aquela que trabalha a descontinuidade e a visão não totalizante, compreendendo que "as forças que se encontram em jogo na história não obedecem nem a uma destinação, nem a uma mecânica, mas ao acaso da luta".É esta uma nova forma de olhar o objeto a ser estudado e historiografado, um olhar que procura a profundidade e não mais a continuidade nas "leis do devir."

DO ARTISTA - poema de jairo pereira



o artista :eu indecifrável: no signo vida
dos dínamos interiores as idéias provindas
versáteis os meios ao alcance dos fins
vigorosos os lances as hastes do fazer
antropomísticas as tranças de luzes
febris os compostos recém-criados
vida no inanimado almas nos pós nas teias
na guirlanda sutil do pensimaginado
as mãos destras na argila compõem
heróis cavalos prédios paisagens aeronaves
construções velix do olhar semiótico
as mãos hábeis nos volumes tépidos
estruturas sobre estruturas no labor dos dedos
côncavas entrâncias cônicas formas
ásperas saliências.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

FIM - conto de léo meimes

Jânio senta outra vez em frente a sua TV, retira os chinelos, repousa os cotovelos nos braços da poltrona e se prepara para mais uma vez xingar a falta de programas decentes. Incita seu neto, sentado à sua frente brincando com carrinhos e bonecos, dizendo que temos a pior TV do mundo. Olha para a criança e vê que ela está absolutamente absorta em brincadeiras. Ri-se. Levanta vai até a cozinha alcança uma garrafa de vinho, cor de sangue, e silenciosamente a abre se serve e volta para a poltrona. A criança nem presta um olhar. Fica então o homem ali por alguns momentos, fitando a TV e se emaranha por pensamentos, incoerências, pensa malvadezas, vinganças, balbucia sem querer um xingamento, que faz a criança olhá-lo sem entender. Ri-se de novo. Havia há pouco feito oitenta anos, o velho, em uma festa que só ele não queria comemorar. Tinha se tornado uma daquelas pessoas amargas, que só prestou a atenção no que de ruim lhe infligiram. Fora antigamente um político, não no sentido exato da palavra, mas pertencia a movimentos, fazia passeatas e tinha uma grande vontade de lutar. Lutar... Hoje é apenas uma lembrança, que somente á ele importa. Fala muito do passado, sem que os outros lhe dêem atenção, aproveita qualquer brecha de assunto para entrar em histórias. Aos quase quarenta e poucos anos, quando finalmente conseguiu o que queria politicamente, resultado de várias e várias lutas, estagnou. Então o que ele plantou, antiga esperança, é a desgraça de hoje. Tentara a todo custo sim ser o dono de seu próprio destino e acabou estendendo esta posse ao dos outros. Lutou para que seu ponto de vista fosse compartilhado, que suas visões, (previsões!) fossem ouvidas. Mas e agora? Onde foi parar sua clarividência? Mal enxerga. Não tem mais voz. Para seu próprio desespero está ainda mais lúcido do que nunca, porém até quando? A família se reúne uma vez por mês para ver o vovô, seis netos, cinco filhas. Nenhum homem. Sua luta foi também a de pai. Com desesperos e bons momentos as criou, cinco. Talvez isso que lhe tenha dado um pouco de trabalho após o fim das lutas. Seus netos provavelmente serão de outro mundo, pois seu mundo deixou de existir e não existem brechas para um velho, idealista, um rastro, um espectro de um passado pagão. Um lugar no futuro? Nem no presente ele tem um lugar. Já não o deixam fazer nada. Se tornou uma criança a ser cuidada. Terminou a taça de vinho e não está satisfeito. Não, ele nunca está satisfeito as realidades lhe fogem ao toque cada vez que tenta alcançá-las e a única que conseguiu alcançar em toda uma vida, um sonho, um desejo, trouxe mais desejos e outras realidades a serem alcançadas além das decepções. Hoje em dia ele foge das realidades, tenta um refúgio na vida de aposentado. Na poltrona, na TV (que por irritá-lo ainda serve como uma diversão) na memória. Já percebeu que as realidades não são suas amigas, não são nem agradáveis, nem justas. Em seu lapso de reflexão, o velho chora. As lágrimas lhe caem em um lamentar silencioso e ansioso. O neto ainda absorto nem percebe e seu avô já havia levantado e saído da sala. Três batidas haviam quebrado o silêncio e por pouco não quebram também a porta da frente. O homem arrastando chinelas e balbuciando “já vais” e mais xingamentos, abre a porta, ainda secando os olhos do choro. Ao fitar tão negra forma, ele cai novamente em pranto. A priori da morte, volta as costas à criatura, adentra a casa e então, goza do vinho, do momento, do passado, recolhe lembranças, sentimentos, guarda em si tudo que da li precisa para sobreviver, pois a morte é um longo instante de reflexão. E se vai. A criança ao ver a mãe chegar e desesperada tentar acudir o velho diz na forma de uma indagação – “vovô?” - e deixa-se cair aos pés do homem, em um tropeço desajeitado. Pobre criança, como explicar que à tempos não há mais “vovô”?

CONVITE/ufpr - env. por vera stokler


FÚRIA

Sobre a filosofia


Quando um filósofo completa uma resposta, ninguém mais se lembra qual foi a pergunta.


andré gide.

BURRICE ENTRONIZADA - por walmor marcellino

FICHA DE AVALIAÇÃO



Ao receber uma proposta chamada de “Os Invisíveis I”, o Programa de Apoio e Incentivo a Cultura designou Marli A., Artur C. F. e Osmar C. para analisarem e avaliarem o projeto com pedido de parceria.
Era uma proposta cultural insólita e, talvez por isso, fora do entendimento do programa de apoio oficial; para um programa inteligente e, talvez por isso, além da inteligência cultural do PAIC; e, contendo ações criativas, talvez por isso, muito acima da percepção da idéia de cultura do PAIC.
Seja qual for a razão, tornada pública a proposta de “Os Invisíveis I”, é a função, a pretensão e a capacidade ‑ não das três pessoas que arbitraram e se expuseram nessa “avaliação de qualidade” (?), “do conhecimento” (?) do proponente, da “adequação de orçamento” (?), da “abrangência” (?) do projeto e da “contrapartida social” ‑ do próprio Programa de Apoio e Incentivo a Cultura que está em causa. É a cabeça do prefeito de Curitiba que está sendo julgada, pelo sentido desse mecenato público; e que condições (e ou condicionamentos ético-políticos) têm essa entidade e seus burocratas estéticos para analisar e avalizar ações de cultura?
Quando tomei conhecimento desse projeto “Os Invisíveis I”, entusiasmei-me com o sentido, o alcance e a forma de demonstração de vida inteligente e crítica em Curitiba, e no Paraná. ‑ que especialmente vegeta na área cultural e suas manifestações culturais passeiam da indigência à pobreza, desmerecendo seus habitantes.
Claro que se deve fazer justiça a intelectuais e artistas criativos, não dedicados apenas ao “job” publicitário (ponto de fuga da “criatividade”) ou ao discurso acadêmico e/ou de propaganda política oficial; e sim à ruptura da mesmice produtiva e da miséria criativa.
Todavia, secretariado de cultura, acionaria cultural e incentivo a cultura são deferidos no Estado e na Capital a lheguelhés e lhogolhós, que devem decidir num bingo de mecenatos o que é cultura, sua função e quais os meios econômico-sociais disponíveis. Pura zoologia política para fazer as contas.
Vejo, pelos exercícios da burocracia cultural de Estado e Município, que a idéia de cultura e arte está nos pés do governador do Estado e no cóccix do Prefeito

JOÃO UBALDO RIBEIRO

"Se não entendo tudo, devo ficar contente com o que entendo. E entendo que vejo estas árvores e que tenho direito a minha língua e que posso olhar nos olhos dos estranhos e dizer: não me desculpe por não gostar do que você gosta; não me olhe de cima para baixo; não me envergonhe de minha fala; não diga que minha fala é melhor do que a sua; não diga que eu sou bonito, porque sua mulher nunca ia ter casado comigo; não seja bom comigo, não me faça favor; seja homem, filho da puta, e reconheça que não deve comer o que eu não como, em vez de me falar concordâncias e me passar a mão pela cabeça; assim poderei matar você melhor, como você me mata há tantos anos."

(Vila Real)

DEPRAVADA, VAGABUNDA, SABONETE...- por rosa de janeiro*

Era assim que ela sempre foi classificada. Velhas e jovens senhoras não poupavam palavras e nem tempo para o assunto preferido quando ela passava._ Aquela menina..não sei não..._ Que menina que nada! É uma arrombada! Dá para o primeiro que vê.Mas na cabeça dela as coisas eram bem diferentes... Era uma jovem mulher, que descobriu que poderia descobrir-se muito mais, e que o sexo não se resumia em abrir as pernas e que o tesão era algo muito além do que ela sentia quando o primeiro namorado pegou em seus seios nus. Descobriu que teria muito mais prazer ao escolher um homem do que ser escolhida e que em quatro paredes deve-se fazer o que é bom para os dois e não só para o homem.Percebeu que percebia o mundo de uma maneira quase que totalmente diferente de todas as outras garotas e mulheres “vividas”. Pagou pra ver, e caro, mas nunca se arrependeu. Antes errar do que viver no erro de não ter experimentado o que o coração e o corpo pedira.Dentre muitas coisas que fazia quando dava vontade estava à raiva de ter que fazer as coisas escondido, de ter que mentir sobre o que queria, sobre o que sentir. Se era uma mulher que apreciava a beleza de um corpo másculo, de um beijo ardente, de um toque ousado ou um simples olhar provocante em meio a multidão por que viver em prol da “moral e dos bons costumes” dos puritanos hipócritas de plantão?Ela nunca gostou de ter colegas boazinhas demais. Até tinha, mas não tinha muita paciência com os seus olhares distorcidos quando ela contava algo de sua intimidade. Também não queria vagabunda que se vendiam nem quem dava por modinha, apenas queria uma amiga que também quisesse achar respostas para suas dúvidas.Até entendia as demais, mas sentia que era diferente. Nada anormal, não para ela. Mas para os outros.Não sabia controlar a vontade que tinha de se descobrir. Apreciava a beleza masculina e repudiava seu comportamento característico. Essas informações entravam em conflito e ela se tornava mais fria, tendo em mente apenas a suas segundas intenções com os desprotegidos homens que cruzavam o seu caminho, mas deixava esses pensamentos de lado quando sentia que mais uma conquista se aproximava para colocar no seu caderninho de telefones.Sim, como na música ela tinha um. Sabia direitinho a página onde encontrar o que queria para aquela noite para aquele momento. Tinha o Moreninho com cara de galã da Malhação e beijo doce, o loiro bombado com a pegada forte, o modelo bisexual que depois daquele rala gostoso ainda sabia bater um bom papo sobre os homens como uma amiga, o roqueiro cabeludo com cara de mal que ela só queria dar uns beijos e conversar. Ela tinha tudo o que queria dos homens, e ao contrário do que todos estejam pensando, todos eles sabiam como ela era, todos gostavam das coisas assim, era uma troca de momentos e na pior das hipóteses quando não se apaixonavam por ela viravam seus amigos.Ao contrário do que pensam ela era discreta, beijava quem quisesse e onde quisesse, mas sexo explicito não fazia parte da sua rotina, não era assim que ela queria se impor à sociedade. Na verdade ela não queria nada com a sociedade, queria apenas viver bem. Então como os outros sabiam “tanto” da sua vida sexual? Fora uns poucos seres desagradáveis que ela teve um relacionamento realmente ninguém sabia de nada, pois é, as pessoas inventavam. Pior que dessa vez acertaram, pois realmente casar virgem não era a sua cara nem para um desconhecido, mas isso mais uma vez confirmava o que ela sempre dizia sobre viver em função do excesso de preocupação com a “moral” sendo que essa mesma pode cair a qualquer momento pela boca do povo.Voltando ao seu íntimo, lá estava ela pensativa. Vivia várias vidas ao mesmo tempo. Sua personalidade independente só baixava a guarda quando se tratava de não magoar os pais, mesmo que lhe viesse à garganta uma vontade imensa de gritar com eles e dizer que seus desejos sexuais nada interfeririam na verdadeira moral que ela tinha, ou seja, na boa pessoa, amiga, honesta e batalhadora que era. Mas, fazer o que né, a idade de ambos e as condições da sociedade não permitia que achasse uma maneira de mostrar quem realmente era por completo à seus pais.Pensava no absurdo que o mundo era. Se fosse lésbica teria esse mesmo problema com a rejeição da sociedade e família, mas esse não era o caso, pelo contrário, apenas queria ter o mesmo direito que os homens usufruem e os fazem ser mais livres. Apenas queria ser uma mulher por completo.
Bom, coloquei esse texto de minha autoria apenas para saber mais um pouco como vocês abordam os assuntos. É importante pra mim.
Dêem a sua opinião sobre "Ela" por favor.

* quem não quiser postar em "comentários" pode enviar para o email dos palavreiros da hora que enviaremos a sua contribuição para rosa.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Entrevista com Rita Levi Montalcini - premio nobel de medicina

Entrevista com a Dra. Rita Levi, que tem 96 anos e recebeu o Premio Nobel de Medicina há 19 anos, quando tinha 77.! Rita Levi Montalcini, nasceu em Turín, Itália em 1909 e obteve o titulo de Medicina na especialidade de Neurocirurgia.
Por causa de sua ascendência judia se viu obrigada a deixar a Itália um pouco antes do começo da II Guerra Mundial. Emigrou para os Estados Unidos onde trabalhou no Laboratório Victor Hambueger do Instituto de Zoologia da Universidade de Washington de Saint Louis.
Seus trabalhos junto com Stanley Cohen, serviram para descobrir que as células solo começam a se reproduzir quando recebem a ordem para isso, ordem que é transmitida por umas substâncias chamadas fatores do crescimento.
Obteve o Premio Nobel de Fisiologia na Medicina no ano 1986, que compartilhou com Stanley Cohen.

ENTREVISTA CONCEDIDA EM 22/12/2005:

- Como vai celebrar seus 100 anos?
-Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que eu estou interessada e gosto é do que faço cada dia.!
-E o que você faz?
-Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem ... elas e seus paises. E continuo investigando, continuo pensando.
-Não vai se aposentar?
-Jamais! Aposentar-se é destruir cérebros! Muita gente se aposenta e se abandona... E isso mata seu cérebro. E adoece.
-E como está seu cérebro?
-Igual quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nem em capacidade. Amanhã vôo para um congresso médico.
- Mas terá algum limite genético ?
- Não. Meu cérebro vai ter um século...., mas não conhece a senilidade.. O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!
-Como você faz isso?
- Possuímos grande plasticidade neural: ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente estimulá-los!
-Ajude-me a fazê-lo.
-Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faz ele trabalhar e ele nunca se degenera.
-E viverei mais anos?
-Viverá melhor os anos que vive, é isso o interessante. A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões....
-A sua foi a investigação cientifica...
-Sim e segue sendo.
-Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso...
-Sim, em 1942: dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida sua validade e em 1986, me deram o premio por isso.
-Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista?
-Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe... E eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.
-Seu pai ficou magoado?
-Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa... Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia tão inferior...
-Vejo que isso foi um estimulo...
- Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África para ajudar com a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem, isso era meu grande sonho...!
-E você tem feito..., com sua ciência.
- E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem. Lutamos contra a enfermidade, a opressão da mulher nos paises islâmicos por exemplo, além de outras coisas...!
- A religião freia o desenvolvimento cognitivo?
-A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.
-Existem diferencias entre os cérebros do homem e da mulher?
- Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas ao sistema endócrino. Mas quanto às funções cognitivas, não tem diferença alguma.
-Por que ainda existem poucas cientistas?
- Não é assim! Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.
-É verdade?
- A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra. Hoje, felizmente, tem mais mulheres que homens na investigação cientifica: as herdeiras de Hipatia!
- A sábia Alexandrina do século IV...
- Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela. Claro, o mundo tem melhorado algo...
-Ninguém tem tentado assassinar a você...
- Durante o fascismo, Mussolini quis imitar o Hitler na perseguição dos judeus..., e tive que me ocultar por um tempo. Mas não deixei de investigar: tinha meu laboratório em meu quarto...E descobri a apoptose, que é a morte programada das células!
-Por que tem uma alta porcentagem de judeus entre cientistas e intelectuais?
- A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectivos e intelectuais: podem proibir tudo, mas não que pensem! E é verdade que tem muitos judeus entre os prêmios Nobel...
-Como você se explica a loucura nazista?
- Hitler e Mussolini souberam como falar ao povo, onde sempre prevalece o cérebro emocional por cima do neocortical, o intelectual. Conduziram emoções, não razões!
- Isto está acontecendo agora?
- Porque você acha que em muitas escolas nos Estados Unidos é ensinado o creacionismo e não o evolucionismo?
-A ideologia é emoção, é sem razão?
- A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós não e, ao sermos imperfeitos, temos recorrido a razão, aos valores éticos: discernir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução darwiniana!
-Você nunca se casou ou teve filhos?
- Não. Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que decidi dedicar todo meu tempo, minha vida!
- Lograremos um dia curar o Alzheimer, o Parkinson, a demência senil?
- Curar... O que vamos lograr será frear, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.
- Qual é hoje seu grande sonho?
- Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva de nossos cérebros.
- Quando deixou de sentir-se feia?
- Ainda estou consciente de minhas limitações!
-Que tem sido o melhor da sua vida?
-Ajudar aos demais.
-O que você faria hoje se tivesse 20 anos?
-Mas eu estou fazendo!!!!

* env. por Berenice Teodorovicz

domingo, 11 de novembro de 2007

GLOBALIZAÇÃO - poema de jb vidal

por que deixar o mundo menor do que é?
para nos sentirmos maiores do que somos?
para despertar desejos?
para acentuar as diferenças?
para dividir um homem em dois?
para reciclar o desprezo?
para cuspir em outro continente?
para humilhar mais?
é tudo o que queres?
se entendes que podes tudo, então...

então construa uma estrada para as estrelas
que tenha mão de volta

então navegue o mar revolto sem velas
sem motores, nem remos

então sejas capaz de entender
um par de sapatos no telhado

então compreenda a mão estendida
para o nada

então enfie os dedos na merda
faça uma escultura e sorria

então ande de mãos dadas
com um psicótico

então sinta as tripas roncando
e imagine seja o teu monólogo


então me dê um pedaço da carne
d’uma criança morta da Etiópia

então sopre os ventos do sul
para o sul

então me dê um estilhaço de granada
de Jerusalém

então mije contra uma corrente marítima
até virar maremoto

então me dê a fome
de Serra Leoa

então morda a língua do mar
no rochedo

então me conte porque o Harlem
é o Harlem

então prove que os teus quinhentos gramas de salmão
são iguais aos meus quinhentos gramas de fome

então admita que o teu dominar
depende do meu sucumbir

então prove que minha alma
está limitada ao teu existir


se isto, então faça tudo,
se não, deixe os ventos soprarem

O POVO E O CONGRESSO NACIONAL - de fernando acácio

Diuturnamente acompanhamos as inúmeras reclamações com relação ao desempenho dos políticos, em todas as esferas de poder, contudo, o mais interessante, é que ninguém se atentou para o relevante detalhe que, tanto as Câmaras Municipais, quanto as Assembléias Legislativas Estaduais e o próprio Congresso Nacional, possuem, (pasmem!), nada mais, nada menos, do que a cara do povo brasileiro.Inúmeras pesquisas e até a mais recente efetuada pela agência de publicidade Ogilvy Brasil, mostram as inúmeras contradições de nosso povo, como por exemplo, a mais gritante, que diz respeito à participação da vida em comunidade, quando 95% se declaram inteiramente favoráveis, paradoxalmente, apenas 4% tem o trabalho social como sonho e projeto de vida, e ainda 78% concordam que o individualismo e o egoísmo cresceram muito nos últimos anos.Mas a coisa não para por ai, 60% da população condenam pequenas transgressões, como por exemplo, bater o cartão de ponto de um colega de trabalho, comprar produtos piratas ou falar ao celular no trânsito, paradoxalmente, 66% não se incomoda em comprar coisas no comércio informal ou pirata, assim, pode-se muito bem concluir que o cidadão brasileiro está pensando no seu progresso pessoal, que pode acontecer, na sua visão, independente do progresso da nação.Apenas esses dois pontos já servem para dar uma grande mostra no que a nossa sociedade vem se transformando. Justamente por isso, podemos encarar as inúmeras indignações contra os políticos como bravatas, pois ninguém toma uma ação, ao contrário do que acontece, e temos acompanhado, quando o assunto é o time do coração. Portanto, todos os cargos eletivos, refletem o pensamento da sociedade, e suas ações, nada mais são, do que o reflexo das ações da coletividade, em menor escala, porque é praticado individualmente. É correto também afirmar que o brasileiro não aprende com a sua própria história, e nem com seus intelectuais, em 1933, Gilberto Freyre já descrevia o brasileiro como um “equilibrista das contradições” em sua obra prima Casa Grande & Senzala.Mas para que serve tudo isso? Para indicar que são necessárias mudanças profundas na sociedade, mudanças estruturais, e preventivas, que produzam mudanças de comportamento, e não apenas mudanças pontuais, tomadas quando o problema já está em curso, e apenas se quer dar uma satisfação à sociedade “indignada”. Esse caminho de mudanças estruturais é muito mais longo, o que inviabilizaria os projetos políticos individuais; por isso, sempre relegado, sempre engavetado. E assim, o Brasil vai mostrando a sua cara, uma de dia e em público e outra a noite, no particular, o interessante, é que ninguém se atentou que, mais cedo, a conta é paga por todos.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

O MALA - conto de josé alexandre saraiva*

Meu primeiro mala era de lascar o saco. Tão logo eu descia as escadas da faculdade, nos intervalos, ia deparando suas alças à espreita de vítimas. Quis o diabo que eu fosse uma delas. O cara, sujeitinho de poucas letras, falava sem respirar, misturando assuntos sem qualquer nexo e sem conceder qualquer chance para a interlocução. Com sorriso largo e vulgar, atraía colegas desatentos para tagarelar sozinho, rir sozinho de seu sarapatel temático, alongando-se em narrativas enfadonhas, sonolentas. Para impressionar, puxava brocardos em latim de duvidosa procedência. Nesses infelizes momentos, quando não lograva desvencilhar-me do pentelho, com a paciência alcançando o pico da tolerância, e dando-me conta de que os cigarros, um atrás do outro, já não continham a diplomacia que carrego do berço, valia-me de algum lampejo de sua respiração para vingar-me sutilmente do porra-louca. Certa feita, num milagroso intervalo de sua fala, preguei-lhe esta: “Muito bem. Noto que você vive numa verdadeira obsolescência cultural”. E o mentecapto de pronto respondeu, agradecido: “Vindo do proeminente colega tão impactante ‘elogio’, não encontro palavras para agradecer sua bondade, que atribuo à nossa amizade. Aliás a bondade humana é pérola preciosa, encontradiça em seres que aos poucos vão desaparecendo da face da terra. Por falar no planeta terra, o que acha o nobre acadêmico sobre esse terrível buraco na camada de ozônio? Discordo da tese do Vidal. Para mim, o iminente desastre contra nossa civilização não tem outro culpado senão o próprio homem. Somos responsáveis, sim, por todos os males que nos afetam. Veja a tragédia que assola os rios. Chegamos ao ponto de matar os rios! Não poupamos sequer o mico-leão. Você sabia que a população do mico-leão não chega a três centenas? Somos ou não somos os culpados? É verdade que a ciência do Direito vê a culpa de uma forma diferente do meu ponto de vista, principalmente quando não há dolo, mas, no caso em debate, não restam quaisquer resquícios de dúvidas no sentido de que somos autores em pessoa de todos os males que grassam na face da terra. O prezado poeta concorda ou não concorda com a minha posição sobre o dolo e sobre a culpa? Antes de sua resposta, considere que toda a antítese no fundo é uma tese nova, a ser resolvida pela dialética. Como diz o Serginho, a maiêutica socrática, se por um lado ganha novos adeptos, por outro, sempre enfrentou calorosos combates. Mas esses doutos combatentes, conforme tese de mestrado defendida por minha esposa e em cuja classe já me incluía antes mesmo de nascer, com a mais pura convicção, etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., quá-quá-rá-quá-quá, quá-quá-rá-quá-quá, quá-quá-rá-quá-quá, quá-quá-rá-quá-quá, quá-quá-quá, quá-quá-quá, quá-quá, etc., etc., etc., etc., etc., etc, et, pô, pô, pô, etc...”
Uma noite, após a aula, violenta tempestade de granizo, seguida de intenso temporal, obrigou-me a buscar desesperadamente refúgio em antigo quiosque de cafezinho da Boca Maldita, no centro de Curitiba. Completamente encharcado, adentro o ambiente notando que na rua não havia viva alma. Idem no quiosque. Enquanto limpava os óculos embaçados, eis que o meu carrasco, igualmente fugindo da chuva - que durou exatos quarenta minutos -, invade o local discursando solenemente para mim sobre o desequilíbrio social na época dos faraós. O pior: meus cigarros ficaram ensopados e o brimo do quiosque já tinha se mandado, trancando com cadeado um armário onde guardava o lenitivo para minha aflição.

*o autor é membro da Academia de Letras José de Alencar e do Centro de Letras do Paraná.

POEMA - de carolina correa*

(......)

Sala vazia.
Futuras conquistas a ocupam por inteira.
Cada canto
Vidas passadas,
Elas somente,
Desfrutam de suas historias,
Gostos e desgostos,
Conquistas e perdas.
4 paredes,
Viajantes constantes
No tempo,
No espaço.

Chaves na mão.
A porta leva ao desconhecido.
Mãos que agora a possuem,
Visam glórias,
E glórias somente.

Concreto,
Moldado conforme gostos e vontades,
Acolhendo futuros heróis da história imediata.
Pura alma.
Pura verdade.
Minha alma.
Minha verdade.
O herói.
Eu.
Eu sou o herói
Dessa história imediata.

* carolina correa (17 anos) é estreante e faz parte do grupo de novos autores do blog.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

NA CASA de BUSCH - o artista plástico fernando botero

















O artista plástico colombiano Fernando Botero afirmou em Washington que suas 79 obras sobre as torturas sofridas por prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib foram concebidas para dar vazão à "raiva" que sentiu diante de uma conduta "inaceitável" do Governo dos Estados Unidos.Botero, de 78 anos, está na capital americana para a abertura, nesta terça-feira 6 de novembro, da exposição que o Museu de Arte da American University montou com seus quadros sobre as atrocidades cometidas no centro de detenção de Abu Ghraib. As imagens, disse, provocaram nele muita "raiva".Numa entrevista coletiva concedida ontem, Botero disse que pintou as telas em 2005, "para serem vistas" especialmente pelo público que revela consciência política.Porém, o colombiano frisou que prefere não tratar de temas assim, já que, segundo disse, o artista "deve se manter fiel aos ideais da estética"."Você tem que ser fiel à pintura antes de qualquer outra coisa", declarou Botero, que também é escultor.O artista plástico enfatizou várias vezes que sua mostra é apolítica. Além disso, declarou que, com os quadros sobre Abu Ghraib, só queria aliviar a raiva que sentiu após ler a respeito das torturas cometidas pelos soldados americanos."Só fui um artista tentando modelar meus sentimentos numa tela.Não fui um profeta, mas um artista que tentava liberar essa raiva", acrescentou.Uma vez concluída a série de pinturas, "a raiva desapareceu, porque eu já tinha dito o que precisava dizer", afirmou.De modo geral, as obras mostram a perspectiva das vítimas, muitas delas nuas, de mãos amarradas, encapuzadas, empilhadas numa pirâmide humana ou aterrorizadas pela presença de um cachorro ameaçador.Um dos quadros mostra um homem vendado e vestindo um sutiã e calcinha vermelhos.A figura do torturador está ausente na maioria das obras, salvo em quadros como o "Abu Ghraib 43", dividido em três painéis.Pressionado pelos jornalistas sobre a arte como instrumento político, já que uma vez Botero disse que a arte poderia ser um ato de denúncia, o artista disse que "tudo vai se corrigir em 12, 14 meses".O colombiano se referiu às eleições presidenciais que acontecerão nos Estados Unidos em novembro de 2008, das quais o atual presidente americano, o republicano George W. Bush, não poderá participar.Botero também disse que, com a série sobre Abu Ghraib, não foi "a primeira vez" que se preocupou com algo que sentia que deveria expressar. Ele lembrou que já criou dezenas de obras denunciando os abusos da guerrilha colombiana contra os direitos humanos.Perguntado sobre se os Estados Unidos devem fechar as prisões clandestinas ou o centro de detenções de Guantánamo, o artista plástico foi evasivo. "Não quero me meter em temas para os quais não tenho preparo nem sobre os quais sou uma autoridade, porque não tenho o conhecimento de todos os fatos por trás", respondeu.Para Botero, a função do artista é só "fazer arte", e há uma grande diferença entre "a política ativa e real, que é a que movimenta as coisas, e a opinião política pessoal"."Propor soluções ou sugerir punições não é meu ofício. Ou seja, não me interessa nem tenho conhecimento de todos os dados necessários para dar emitir um juízo sobre as coisas. Só expresso minha raiva frente a algo que é evidente", afirmou.A mostra de Botero é uma de três que fazem parte da exposição "Arte de Confronto", na qual o Museu de Arte da American University reúne obras de protesto social e político dentro e fora dos Estados Unidos.A exposição, que já passou por Nova York e pela Califórnia, chega a Washington diretamente de Milão, e permanecerá na capital americana até 31 de dezembro, quando seguirá para o México.

Maria Peña, Waschington, 6 de nov/07 EFE




Soneto à maneira do décimo-sétimo século - de jaques brand





Dê-me tua mão, Amiga, e ao meu lado

venha dos campos ver as verdes lindes

- ainda mais lindas se por elas vindes

e mais ainda se vindes ao meu lado.



Ouçamos da floresta que os margeia

a brisa perpassar o chão florido

e num transporte breve o leve Ar ido

nos leve em seu alento ao léu, à Aléia.



Das sendas derivadas, e à deriva,

à Suma alcemos juntos, às alturas

de um Saber bom que eu sei, musa lasciva.



Enquanto achas levo à labareda

e achas leve em teus quadris meu gesto,

as Artes eu direi, de Amor, que enleva.



As Artes eu direi, de Amor, que enreda.

Sorria! Você está sendo controlado? - por francisco augusto cruz de araújo

Quem nunca se imaginou num daqueles filmes de ficção ou programas de televisão onde existem câmeras e microfones por todos os lados? Receio de ser ouvido na rápida conversa com o amigo dentro do elevador, ser visto cometendo alguma infração ou com comportamentos que contrariem a moral social? Há vinte anos, imaginávamos que essa realidade só seria possível nos filmes, novelas e livros. Mas hoje, somos submetidos a um intenso sistema de vigilância e controle e nem mesmo sabemos quem nos vigia. Tal obsessão é muito clara no filme "Invasão de Privacidade", onde vemos que esse "olhar de poder" faz parte do nosso cotidiano, embora, não signifique sempre segurança para nós.George Orwell, escritor britânico, escreveu a obra 1984, prevendo o projeto de uma sociedade controlada por sistemas inteligentes. O Estado, chamado popularmente de Grande Irmão (Big Brother), regia o comportamento social por meio da manipulação de informações e da coação por teletelas, microfones escondidos em todos os ambientes (fossem públicos ou privados) e pela Polícia do Pensamento. Na história, as pessoas eram proibidas de pensar, falar demais, escrever e até mesmo amar sem que o Grande Irmão mediasse tais atos. Notem o avanço. Um sistema capaz de saber o pensamento do sujeito. Em 1984, Orwell questiona até que ponto permitimos o controle e a transformação da nossa realidade por um Estado totalitário disfarçado de democracia, no qual as pessoas adaptam seus costumes ao intenso Controle Social do Grande Irmão. A eterna busca por vigilância e controle social sempre foram marcas características de um Estado. Há uma frase do pensador americano Thomas Jefferson (1743-1826), que diz: "o preço da liberdade é a eterna vigilância". Pensando essa idéia, Giddens, sociólogo inglês, reflete que por necessitar de controle da situação, o Estado teve que desenvolver certas condições de vigilância que fossem capazes de garantir a concentração administrativa que tanto caracteriza os estados modernos. Vigiar é então, um meio de se estabelecer a ordem social. Vigiar deixou de ser um papel só do Estado e se tornou também preocupação ao cidadão comum. Não é tão difícil se obter câmeras e microfones que podem facilmente ser escondidos, enfeites de casa com câmeras embutidas e aparelhos de grampos telefônicos para escuta com utilidades diversas a uma simples família. Casos de violência e abusos a crianças, idoso e corrupção são facilmente desbaratados com a ajuda de sistemas de vigilância secreta. Mais intrigante ainda, é pensar que mesmo com intensa vigilância, a sociedade sempre encontrou maneiras de passar despercebida aos olhos que tanto nos acompanham. Um caso recente e muito interessante é o que vem ocorrendo com os políticos brasileiros, que se dizem as maiores vítimas da vigilância do Estado. O Guardião da PF – sistema em que se fazem as interceptações telefônicas dos crimes à nação, como corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, dentre outros, tem se mostrado muito atuante no que diz respeito à "vigilância oculta e silenciosa". As tecnologias evoluem de forma dinâmica e constante, correspondendo às necessidades das pessoas, e dentre elas, também estão os interesses criminosos e privados de alguns políticos brasileiros. Enquanto no passado cada político possuía cerca de dois ou três telefones celulares, sem contar as linhas fixas do seu gabinete, hoje eles abriram mão das linhas telefônicas e aderiram às novas tecnologias que ainda não podem ser controladas. MSN, SMS, Skype (VoIP), FAX, E-mails criptografados e muita liberdade. Vigiar e controlar seriam então a melhor maneira de prevenir problemas sociais como o crime organizado, narcotráfico e exploração sexual? Ou a privacidade do sujeito não deveria ser violada justificada pelos princípios democráticos de liberdade? Não podemos até o momento responder seguramente tantos questionamentos, mas algo já é possível de se avaliar. A sociedade de modo geral está entregue a certo modelo de vigilância, seja nos locais públicos e privados, tendo que enfrentar o olhar discreto e frio das câmeras e desta forma constrói certo código de conduta diante delas. Em contrapartida, nossos políticos se preocupam em encontrar as falhas no sistema, o local onde há o descontrole, onde não sejam captados ou percebidos. No futuro conheceremos melhor os danos e os benefícios causados à nossa democracia. Enquanto isso devemos nos acostumar com a velha expressão: "Sorria, você está sendo filmado".

env. por loris junquer

terça-feira, 6 de novembro de 2007

MODELO - poema de joão batista do lago

Vocês vêem ali aquela mulher?
Ah, como era bela e formosa!
Jovem, aquela mulher,
Despertava paixões,
Encantava poetas.
Uma luxúria, aquela mulher.


Uma celebridade, aquela mulher.
Vocês vêem ali aquela mulher?
Ah, como era bela e formosa!
Jovem, aquela mulher,
Agora, desperta pena e dó
Não tem mais passarelas
Não encontra mais poetas tagarelas

NÃO mais, never more, nunca más...


CIRURGIA de LIPOASPIRAÇÃO? composição de herbert vianna

Pelo amor de Deus, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não sei,
nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas,
mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração?
Uma coisa é saúde outra é obsessão.
O mundo pirou, enlouqueceu.
Hoje, Deus é a auto-imagem. Religião é dieta.
Fé, só na estética. Ritual é malhação.
Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo,sentimento é bobagem.
Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção.
Roubar pode, envelhecer não. Estria é caso de polícia. Celulite é falta de educação.
Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso.
A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?
A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz,
não pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem.
Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa.
Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa.
Não importa o outro, o coletivo.
Jovens não tem mais fé, nem idealismo, nem posição política.
Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.
Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar correr, viver muito, ter uma aparência legal mas...
Uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados aos vinte anos não é natural. Não é, não pode ser.
Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude. Que eu me acalme. Que o amor sobreviva.
' Cuide bem do seu amor, seja ele quem for '

Todas as lições de um Mestre - por susan sontag*

De sua casa, em Nova York, onde se recuperava de um acidente automobilístico, a falecida escritora e ensaísta norte-americana Susan Sontag não queria ficar ausente dos debates, da inquietação. Sua admiração e seu respeito por Jorge Luís Borges se traduzem neste texto espirituoso, escrito em homenagem ao já então finado escritor argentino sob forma de carta. Desde 2004 Sontag faz companhia a Borges na “Biblioteca Total Celeste”.

12 de junho de 1996

Querido Borges:
Dado que sempre contemplaram sua literatura sob o signo da eternidade, não parece demasiado estranho enviar-lhe uma carta (Borges, faz dez anos). Se alguma vez algum contemporâneo pareceu destinado à imortalidade literária, este era o senhor. O senhor era em grande medida o produto de seu tempo, de sua cultura e, no entanto, sabia como transcender seu tempo, sua cultura, de uma forma que resulta bastante mágica. Isto tinha algo a ver com a abertura e a generosidade, próprias de sua atenção. Era o menos egocêntrico, o mais transparente dos escritores... e também o mais artístico. Também tinha algo a ver com uma pureza natural de espírito. Ainda que tenha vivido entre nós durante um tempo bastante prolongado, aperfeiçoou as práticas do fastio e da indiferença, que também o converteram num viajante-especialista mental em outras eras. Tinha um sentido do tempo diferente dos demais. As idéias comuns de passado, presente e futuro pareciam banais sob seu olhar. O senhor gostava de dizer que cada momento do tempo contém o passado e o futuro, citando (se bem me lembro) o poeta Browning, que escreveu algo assim como "o presente é o instante no qual o futuro se derruba no passado". Isso, sem dúvida, era expressão de sua modéstia: seu contentamento em encontrar suas idéias nas idéias de outros escritores.
Essa modéstia se inseria na segurança de sua presença. O senhor era um descobridor de novas alegrias. Um pessimismo tão profundo, tão sereno como o seu, não necessitava da indignação. Melhor fosse inventivo... e o senhor era, sobretudo, inventivo. A serenidade e a transcendência do ser que o senhor encontrou, são para mim exemplares. O senhor demonstrou de que maneira a infelicidade não precisa ser uma necessidade, ainda que a perspicácia e o esclarecimento não nos livrem do terror de tudo isso. Em algum momento o senhor disse que um escritor - acrescentando delicadamente: todas as pessoas - deve pensar que qualquer coisa que lhe suceda, será um recurso. (Estava falando da sua própria cegueira).
O senhor foi um grande recurso para outros escritores. Em 1982 – quer dizer, quatro anos antes de morrer (Borges, faz dez anos!) – eu disse numa entrevista: "Hoje não existe nenhum outro escritor vivente que importe mais a outros escritores que Borges. Muitos diriam que é o maior escritor vivente... São muito poucos escritores de hoje que dele não aprenderam ou o não o imitaram". E isso continua sendo assim. Ainda continuamos aprendendo com o senhor. Ainda continuamos a imitá-lo. O senhor ofereceu às pessoas novas maneiras de imaginar, ao mesmo tempo que reiterava, aqui e acolá, nossa dívida com o passado, sobretudo com a literatura. O senhor disse que devemos à literatura praticamente tudo o que somos e o que fomos. Se os livros desaparecerem, desaparecerão a história e também os seres humanos. Estou convencida de que tem razão. Os livros não são apenas a soma arbitrária de nossos sonhos e de nossa memória. Também nos fornecem o modelo da autotranscendência. Alguns pensam que a leitura é somente uma forma de escapismo: um escape do cotidiano "real" a um mundo imaginário, o mundo dos livros. Os livros são muito mais do que isso.
Lamento ter de dizer-lhe que a sorte do livro jamais esteve tão ameaçada por semelhante decadência. São cada vez mais os que alardeiam o grande projeto contemporâneo da destruição das condições que tornam a leitura capaz de repudiar o livro e seus efeitos. Imagine-se aconchegado na cama ou sentado num canto tranqüilo de uma biblioteca, folheando lentamente às páginas de um livro à luz de uma lâmpada, e à queima-roupa lhe dizem que daqui para a frente é nos “livros-tela” que deverá descarregar qualquer "texto" a pedido, e que poderá mudar sua aparência, formular perguntas, "interagir" com esse texto. Quando os livros se convertam em "textos", com os que "interagiremos" segundo os critérios de utilidade, a palavra escrita se terá convertido simplesmente em mais um aspecto de nossas realidades televisivas, regidas pela publicidade. Este é o glorioso futuro que se está criando – e que nos prometem - como algo mais "democrático". Obviamente o senhor e eu sabemos que isso não significa nada menos que a morte da introspecção... e do livro.
Esses tempos sequer exigem uma grande conflagração. Os bárbaros não têm que queimar os livros. O tigre está na biblioteca. Querido Borges, entenda, por favor, que não me dá prazer queixar-me. Mas: a quem melhor poderiam estar dirigidas estas queixas sobre o destino dos livros - da leitura em si – senão ao senhor? (Borges, faz dez anos!) Tudo o que quero dizer é que sentimos sua falta. Sinto saudades do senhor. O senhor continua fazendo a diferença. Estamos ingressando em uma era estranha, o século XXI. Porá à prova a alma de maneiras inusitadas. Contudo, lhe prometo: entre nós alguns não abandonarão a Grande Biblioteca. E o senhor seguirá sendo nosso exemplo e nosso herói.

*tradução do espanhol de frederico füllgraff

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

FÚRIA

Sobre a tela "Mona Lisa"


Ela tem o sorriso de uma mulher que acabou de jantar o marido.


lawrence durrell

SONETO - de nelson padrella

Onde estão as fêmeas que cercavam
o tempo em que de jovem me vestia?
Das tábuas de tal cerca só os vãos
restaram. Quiçá uma ou outra tia

Gorda, envelhecida, desdentada
ainda busque trepar por sobre o muro
candidatando-se ao cargo de amada
que eu, a essas alturas, não aturo.

Pois o tempo passou. E cá fiquei
assim jovem, assustado com a velhice
em que subitamente me flagrei.

Onde estão Wilma, Célia, onde Alice?
Exatamente ali onde as deixei:
- No Campo Santo, onde ninguém as pice

O EXALAR da CORRUPÇÃO - por bru anchieta*

Em seus ateliês diabólico-políticos, corruptos alinhavam sua "roupa de roubalheira".
Com linhas daltônicas, ludibriam as nossas retinas já tão fatigadas.Discursos demagógicos e irreais, defesas patéticas, desculpas descartáveis, com o pseudo-discurso de estarem fortalecendo a nossa democracia.Podemos falar em direito do povo quando o cenário traduz um tráfico perene de favores, entre os nossos governantes, favorecendo somente a eles e a uma casta reduzida? Falar em revigoramento da democracia em tempos que ela é alvejada indiscriminadamente não seria um enorme paradoxo? Como podemos advogar a tese que os nossos direitos são assegurados e salvaguardados por um país que exala corrupção? Os questionamentos são em demasia.
Entretanto, as respostas andam cada vez mais longe de nossas vistas. Um país que o imperativo da bandalheira rege nossos passos torna-se difícil pensarmos em democracia e a celeuma é ainda maior no que tange as respostas para as nossas angústias.Esperamos que um dia eles fiquem desnudos perante a verdade e percebam ademais a face sofrida da nossa gente, gente humilde e pobre que, na maioria das vezes, não tem o leite e o pão de seus garantidos.

Espero sinceramente que eles herdem os escombros da babilônia brasileira e que em algum de seus jantares agradáveis bebam o cálice da dor, a mesma que vitima milhões de brasileiros pobres que esperam ansiosamente por uma melhora em suas vidas...

*o autor é estudante de comunicação da UFMA

sábado, 3 de novembro de 2007

RETALHOS - poema de josé fernando nandé

Não se lembra quando, mas
A certa altura da vida começou a tecer uma mortalha com antigos trapos
Panos sobrepostos, costurados com pontos minúsculos
Engraçado, a mortalha, ano a ano,

Ficava menor;
O envelhecer lhe encolhia o corpo
Para que pano maior?

Eis, pois, que dia inadiável daria uso para os retalhos juntados
Eis, pois, que esse dia lhe traria todos os silêncios da terra

Os trapos juntados teriam então sua serventia
Cobririam o corpo miúdo; olhos outros ficariam livre de examinarem
Com atenção demasiada tão triste e feia figura

A mortalha livraria seu rosto dos terrões arremessados pelo coveiro
A mortalha seria sua única e verdadeira obra

Não se lembra quando, mas
A vida pareceu-lhe que era aquilo mesmo
Juntar retalhos e costurar mortalhas para esconder-se dos vivos
Para aninhar-se, com muito jeito, em silêncio, no colo da terra.

A NOVA CRÍTICA LITERÁRIA BRASILEIRA - por silas corrêa leite*

A Nova Crítica Literária Brasileira, às vezes nem é nova (pelos ranços e vitupérios arcaicos), nem é crítica (pelo exercício bocó da dialética imediatista do esculacho janota e boçal) às vezes sequer é literária, quer pelos devaneios de pseudos-jecas pops ou por algumas mesmices de trivialidades engodadas por certos cacarecos de organdi, ou, ainda, pode ser apenas e só isso: brasileirinha. E ainda, sorry, casca grossa e sem seca. Uns têm nome, outros inventam poses, há os que, rançosos, desqualificam uma estréia sazonal, e ainda há os que, por inveja (boa ou má), injetam venenos por causa de frustrações adquiridas, já quem não têm um merecido sucesso e permanecem neomalditos, independentes daqueles clubes de esquinas, de clubes de egos, de testes de sofás e até periféricas oficinas que mais rotulam e vendem peixe de fim de feira do que enobrecem o filão tão propenso a tolos de ouro e vice-versos.
A Nova Crítica Literária Brasileira, coitada, tem patetas de ocasião, cariocas postiços, gaúchos saradinhos, paulistas alocados e mais algumas mineirices de intelectualidades masturbatórias e, pajelanças Leminskianas. E ainda existem outros. Caetanear, por quê não?. A crítica literária brasileira apanha de relho alhures e fica paradoxal: gosta de dar vexame, chuleia citações, agasalha pandarecos e, no final, alardeia uma saideira para todos, até porque ninguém é de ferro, e, depois da tempestade vem a leptospirose.
A Nova Crítica Literária Brasileira cheira a sabão de cinzas. Mas os cueiros estão cheios. Pensa que pensa. Acha é o que não é. Ora, nossa crítica babaquara é bananeira que já deu goiaba, mas, ainda assim, no tear do imaginário impúbere, troça, troca, erra e faz-se singer em roca errada. Saravá, Caio Prado.
A Nova Crítica Literária Brasileira só tem um eventual (e ordinário) verniz novo, laca laica, pois todos beberam - como nosotros - em mágoas paradas; salutar seria se fosse pelo menos serena, crível, polida, e tivesse algum mimo no trato com as ordenanças do chamado rigor formol. Mas nem isso. E para ser um puta roqueiro, cara pálida, tem que se ouvir Pixinguinha primeiro.
A Nossa Crítica Literária Brasileira - perdão, leitores - cheira sovaco vencido de sauro-rex (espécie em extinção), é polêmica pela própria natureza; navalha afiada no enfoque pseudoerudito, bodoque de citações, mas depois dá bom-dia a cavalo, sobe no pau de sebo e, baba baby, atravessa canteiros & e cardumes. Pior, literalmente pisa na bola, magôa. Tudo isso, não com estilo, mas com “estalo”. Só que, sendo polenta fria/ardida, vende, ventila, aparece, faz limonada sem limões, de tão azeda; quase curtida em antro próprio.
A Nova Crítica Literária Brasileira quer ser o que não é. E quando é, aqui e ali, vá lá, vale quanto pesa. Entra na técnica, no estilo, no criar propriamente dito, não viça tecendo loas ao inusitado, ou comparando lesmas com resmas, mormente porque, o crítico não tem que gostar da obra analisada, mas gostar, claro - óbvio ululante - de ser Crítico. Simplesmente isso. Ou não tem nada a Ler. Nem a SER.
A Nova Crítica Literária Brasileira adora espaço novo, adora autor novo, adora alguém vencedor. Fermenta entre avencas. Dá o drible da vaca no texto em si, e cai na gandaia de acionar uma metralhadora cheia de lágrimas (ou purpurinas mal resolvidas), atirando em tudo quanto é alvo, piorando quanto acerta mitos, totens, raízes, pilares. Paraná? Rio Grande do Sul? Santa Catarina? Sai de baixo! Desse eixo ninguém pode ser bom, que altera ânimos, atiça bezerros desmamados de éticas e com/Vivências. Cá entre nós, companheiro, se cada vez que alguém faz sucesso, ocasional ou só mesmo por acidente de percurso de destino, o circo pegar fogo, vai ser um desmanche artístico-cultural total. Coisa que as sensatas tradições gaúchas não fazem. Valoram bem e tudo. Faz sentido. Ainda bem.
A Nova Crítica Literária Brasileira, principalmente aquela bem pamonha que se nutre da mídia (e do open doping da mídia) no saturado eixo Rio-São Paulo, ignora os brasis varonis gerais. Aliás, em terra de Paulo Coelho, todo mundo que cai no palco iluminado da sorte (de ser bancado por uma grande editora), é, de presto, rotulado de mané, merece ser crucifixado no alvo-mira dos pedantes pra consumo. Aleluia, Monteiro Lobato.
A Nova Crítica Literária Brasileira - que quer ser o Provão do Amém - não existe, é conversa fiada para gerente editorial dormir, chove no molhado, arde no ego, glosa no freudiano, bebe em becos e feudos, destila veneno e depois, no trivial, pançuda e demodê, espera as vaias, os aplausos, os coiós atrelados, os arigós com grife. Para não dizerem que não falei de flores, a luta continua. Todo autor neomaldito adora encontrar uma Dalila para cortar os cabelos da sonhadora iniciativa peluda e sensacionalista. O resto é mágoa de fugitivos de pagos e estâncias. Eu, por mim, prefiro continuar neomaldito e morrer assim, do que me servir do pote de vísceras de egos doentios. Nem todo crítico que lê luz é cobrador da ligação. Há os isentos. Raros e curtidos. Em terra de cego, quem tem olho pensa que é dono da bengala. FUI.

*O autor é poeta , educador e jornalista

HUMOR e ÓDIO - env. por ym

O Globo (Brasília):

Câmara se queixa do "Casseta & Planeta."

"Pressionada por deputados, a Procuradoria da Câmara vai reclamar junto à Rede Globo pelas alusões feitas no programa "Casseta & Planeta" exibido terça-feira passada. Os parlamentares reclamaram especialmente do quadro em que foram chamados de "deputados de programa ".
Nele, uma prostituta fica indignada quando lhe perguntam se ela é deputada?O quadro em que são vacinados contra a " febre afurtosa" também provocou constrangimento. Na noite de quarta-feira, um grupo de deputados esteve na Procuradoria da Câmara para assistir à fita do programa.Segundo o procurador Ricardo Izar (PMDB-SP), duas parlamentares choraram.
Izar se encontrará segunda-feira com representantes da emissora, para tentar um acordo, antes de recorrer à Justiça. O presidente da Câmara também se disse indignado:- O programa passou dos limites.Eles têm talento suficiente para fazer graça sem desqualificar a instituição, que garante a liberdade para que façam graça. O diretor da Central Globo de Comunicação, Luís Erlanger, disse que a rede só se pronuncia sobre ações judiciais, depois de serem efetivadas.
Os humoristas do Casseta & Planeta não quiseram falar sobre o assunto, dizendo não querer "dar importância à concorrência".


NOTA DE ESCLARECIMENTO

"Foi com surpresa que nós, integrantes do Grupo CASSETA & PLANETA, tomamos conhecimento, através da imprensa, da intenção do presidente da Câmara dos Deputados de nos processar por causa de uma piada veiculada em nosso programa de televisão. Em vista disso, gostaríamos de esclarecer alguns pontos: 1. Em nenhum momento tivemos a intenção de ofender as prostitutas . O objetivo da piada era somente de comparar duas categorias profissionais que aceitam dinheiro para mudar de posição.2. Não vemos nenhum problema em ceder um espaço para o direito de Resposta dos deputados. Pelo contrário, consideramos o quadro muito adequado e condizente com a linha do programa. 3. Caso se decidam pelo direito de resposta, informamos que nossas gravações ocorrem às segundas-feiras, o que obrigará os deputados a " interromper seu descanso."


Equipe do Casseta & Planeta

"WABI SABI" e a Arte da Imperfeição - env. por silmara robbi

Não sei quanto a você, mas eu ando definitivamente exausta de correr atrás da perfeição.
No outro dia me peguei medindo as toalhas de banho dobradas para que elas formassem impecáveis pilhas no meu armário. Uma amiga me diz que arruma os vidros de tempero por ordem alfabética!? E o pediatra solta um comentário bem-humorado sobre mães que se sentem pessoalmente insultadas quando seus filhos ficam gripados. Como se gripe fosse uma espécie de tinta que manchasse a perfeição dos seus pimpolhos.
Nosso índice de tolerância aos "defeitos de fabricação" do universo anda mesmo muito baixo. E isso nos torna a espécie mais reclamona do universo, provavelmente a única, mas é que tenho algumas dúvidas se bois e vacas interiormente não reclamam daquelas moscas sempre em volta dos seus rabos...
Passamos um bocado de tempo tentando caber nas molduras que inventamos para nós. Isso quando escapamos de tentar vestir à força as expectativas que OUTROS criaram para NÓS.
Senão, me digam por que seres humanos razoáveis investiriam tanto tempo, dinheiro e energia para tentar recuperar a imagem que tinham aos 18 anos?
Por estas e por outras tantas foi que quando terminei de ler aquele livrinho senti que tinha recebido uma revelação divina! É só um livreto, mas, ao contrário, desses livros bonitinhos que a gente compra como se fosse um cartão para dizer "Feliz Aniversário" ou "Como eu gosto de você", não é tão fácil assim de ler. Muito menos de pôr em prática os conselhos da autora.
Em português acabou chamando "A arte de viver bem com as imperfeições". Uma pena, eu penso. O título em inglês é "The Art of Imperfection" ou "A Arte da Imperfeição". Assim, simplesmente. Teria sido melhor. Porque é disto que Véronique Vienne fala no seu pequeno livro: das formas de perceber a beleza que se esconde nas frestas do mundo perfeito que tentamos, sempre em vão, construir para nós.
Você conhece aquela história de que os tapetes persas sempre têm um pequeno erro, um minúsculo defeito, apenas para lembrar a quem olha de que só Deus é perfeito?
Pois é, a Arte da Imperfeição começa quando a gente reconhece e aceita nossa tola condição humana. Véronique Vienne dividiu seu manual em dez capítulos de títulos muito sugestivos: a arte de cometer erros, a arte de ser tímido, a arte de se parecer consigo mesmo, a arte de não ter nada para vestir, a arte de não ter razão, a arte de ser desorganizado, a arte de ter gosto, não bom-gosto, a arte de não saber o que fazer, a arte de ser tolo, a arte de não ser nem rico nem famoso. E encerra o livro com 10 boas razões para ser uma pessoa comum.
"A história está cheia de criaturas incompetentes que foram muitíssimo amadas, desajeitados com personalidades cativantes e gente boba que encanta a todos com seu jeito despretensioso".
O segredo? Aceitar nossas falhas com a mesma graça e humildade com que aceitamos nossas melhores qualidades", ela diz. E propõe: "Perdoe a si mesmo. (...) Você não precisa ser perfeito para ser um ser humano bem-sucedido. De fato, com mais freqüência do que imaginamos, o desejo de acertar impede as coisas de melhorarem e a necessidade de estar no controle aumenta a desordem e o caos".
A Arte da Imperfeição, no entanto, não se limita ao reconhecimento das imperfeições humanas. Também tem a ver com nosso jeito de olhar para as coisas mais banais, mais corriqueiras e enxergá-las com outros e mais benevolentes olhos.
Leonard Koren, um designer americano, publicou alguns livros tentando revelar para o nosso jeito ocidental as delicadezas do olhar "wabi sabi". "Wabi sabi" é a expressão que os japoneses inventaram para definir a beleza que mora nas coisas imperfeitas e incompletas. O termo é quase que intraduzível. Na verdade, wabi sabi é um jeito de "ver" as coisas através de uma ótica de simplicidade, naturalidade e aceitação da realidade. Contam que o conceito surgiu por volta do século 15.
Um jovem chamado Sen no Rikyu (1522-1591) queria aprender os complicados rituais da Cerimônia do Chá. E foi procurar o grande mestre Takeno Joo. Para testar o rapaz, o mestre mandou que ele varresse o jardim. Rikyu lançou-se ao trabalho feliz. Limpou o jardim até que não restasse nem uma folhinha fora do lugar. Ao terminar, examinou cuidadosamente o que tinha feito: o jardim perfeito, impecável, cada centímetro de areia imaculadamente varrido, cada pedra no lugar, todas as plantas caprichadamente ajeitadas. E então, antes de apresentar o resultado ao mestre Rikyu chacoalhou o tronco de uma cerejeira e fez caírem algumas flores que se espalharam displicentes pelo chão.
Mestre Joo, impressionado, admitiu o jovem no seu mosteiro. Rikyu virou um grande Mestre do Chá e desde então é reverenciado como aquele que entendeu a essência do conceito de wabi-sabi: a arte da imperfeição.
O que a historinha de Rikyu tem para nos ensinar é que estes mestres japoneses, com sua sofisticadíssima cultura inspirada nos ensinamentos do taoísmo e do zen budismo, conseguiram perceber que a ação humana sobre o mundo deve ser tão delicada que não impeça a verdadeira natureza das coisas de se revelar. E a natureza das coisas é percorrer seu ciclo de nascimento, deslumbramento e morte; efêmeras e frágeis. Eles enxergaram a beleza e a elegância que existe em tudo que é tocado pelo carinho do tempo. Um velho bule de chá, musgo cobrindo as pedras do caminho, a toalha amarelada da avó, a cadeira de madeira branqueada de chuva que espreguiça no jardim, uma única rosa solta no vaso, a maçaneta da porta nublada das mãos que deixou entrar e sair.
"Wabi sabi" é olhar para o mundo com uma certa melancolia de que sabe que a vida é passageira e, por isso mesmo, bela. Para os olhos artistas de Leonard Koren "wabi sabi" é inseparável da sabedoria budista que ensina:
"Todas as coisas são impermanentes
Todas as coisas são imperfeitas
Todas as coisas são incompletas"
Daí que olhar para elas de um modo "wabi sabi" é ver: A beleza que existe naquilo que tem as marcas do tempo (a velha cadeira de balanço com sua pintura já gasta tomando o solzinho que entra pela janela é wabi sabi). A beleza do que é humilde e simples (em vez de sofisticado e cheio de ornamentos inúteis). A beleza de tudo que não é convencional (quer algo mais wabi sabi do que servir à luz de velas e em toalhas de renda um simples hamburguer?). A beleza dos materiais que ainda guardam em si a natureza (wabi sabi é definitivamente papel, algodão, velhos e nobres tecidos, nada de plástico). A beleza da mudança das estações (que tal
experimentar descobrir os primeiros verdes fresquinhos e brilhantes que anunciam a primavera?)
A Arte da Imperfeição é ver a vida com a tranquilidade de quem sabe que a busca da perfeição exaure nossas forças e corrói nossas pequenas alegrias. Porque, como disse Thomas Moore, "a perfeição pertence a um mundo imaginário". No nosso mundo de verdade, aqui e agora, que tal abrir os olhos para o estilo "wabi sabi"?
_________________________________________________________________

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

DOIS POEMAS - de jairo pereira

O thoroughbred (01)


O thoroughbred castanho
em sua prisão velocíssima
entre frascos de medicamentos
e escalas de trato
vê o verde extenso lá fora
um verde de capins maduros
o thoroubhbred
salta no futuro seu salto ergoluz
mede distâncias em galopes noturnos
e resplandesce manhãs afobadas
dali de seu cárcere obrigatório
estima ganhar espaços abertos
no sem-tempo
filhos potrancos em escaramuças
éguas alazãs campeando vadias
os dias longos
o thoroughbred ultraloz
calcula milhas de liberdade
no relincho repetido
de seus dias superiguais.





O thoroughbred (02)

O thoroughbred relincha
testamentos novos
sina de ser sozinho
em cubículo/cárcere
arenáticas incursões
naquelas pistas
o real: um público de só-passar
usufruir do seu talento
a visão: sonha o contrito
os verdes densos iniguais
em espaços longínquos
onde só se chega corrido
galopes de horizontes livres
trotes de passar pontes
relinchos
de assustar pássaros nos ninhos
o thoroughbred
dorme na sua cela exígua
sobre serragem pinho/araucária
& sopra nathurezas novas
pelas ventas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

JOGO de BOTÕES - por ewaldo schleder

Sabe-se que a invenção – ou descoberta? – da roda foi um dos maiores avanços da humanidade. A partir dela, a roda, tudo rolou melhor e mais rápido. Na cidade, no campo, nas montanhas; até nas águas e no ar – desde que o trem baixe e o avião pouse. E a coisa andou pelos séculos: para cima, para baixo, para os lados; para noroeste, sudeste; para o bem, para o mal. Rolamos e ralamos.

De importância igual ou ainda maior foi a anterior descoberta – seria invenção? – do fogo. A resposta que repergunto: atritar uma pedra na outra até faiscar e explodir se define como descoberta, invenção ou achado? O mais gratificante é que o homem há 8 mil anos pira com a tocha nas mãos. Uma chama nas trevas pode ser a luz no fim do túnel: uma idéia, um apelo à concentração (iogue), ao grito primal, ao ritual, ao luau, ao uivo, ao coito.

Mais modernamente, o irrequieto espírito humano brinda o mundo com as criações – invenção ou descoberta? – da pólvora, do papel e da imprensa. Surgem as primeiras bombas. Nos campos da guerra e da notícia. Perde o homem, com a ilusão de imitar o big-bang. E ganha, por outro lado, com a propagação do conhecimento. Desse experimentalismo físico-químico sobrevém o progresso científico: hidráulico, mecânico, elétrico, eletrônico, cibernético, quântico, ótico. “Nada de novo debaixo do sol”. Perguntas a Salomão.

De tudo, entretanto, o que ninguém até hoje reconhece os devidos méritos é num certo objeto, singelo, revolucionário, imprescindível. Refiro-me ao botão – sem maiores borbotões. Sim, o mísero e injustiçado botão. Monumental e minimalista. Exemplo palpável, tátil, digital, da estética e da ética. Da estética, por ser bonito ou feio, belo ou horrível, exótico, ingênuo, engraçado, ridículo, extravagante, discreto, grande, médio, pequeno; botão de rosa, botões da blusa. Sobre essa suposta estética, está aí o genial artista, mago, Hélio Leites para confirmar. E de Ética, também, pois esbarra em conceitos fundamentais de moralidade e poder. Como o insuspeito botão soviético, ícone do pavor da Guerra Fria. Como o botão de desligar, que o saudoso humorista carioca Sérgio Porto dizia ser a melhor coisa que a televisão nos oferece. Ah! E “os jogos de botões sobre as calçadas”, na canção de Ataulfo Alves (e Claudionor Cruz?).

São inúmeros os botões a nos solicitar toda atenção e cuidado, dia e noite, a nos exigir dedos ágeis e certeiros. No trabalho e em casa: no chão, na parede, no teto, na mesa, na cama, nos eletrodomésticos, nos eletrônicos. Na rua: em campainhas, nos veículos, na hora de votar, de voltar, de entrar no banco, de pagar a conta. O que seria de nós sem o botão? E os botões de roupa, então! Não há limite: roupa íntima (de meados do século 20 para trás), esportiva, social, de gala – fecho “éclair” e genéricos não valem, nem elásticos. Um simples botão, abotoado ou desabotoado, acionado ou em espera, fora de hora ou de lugar é capaz de mudar os rumos da história, ou menos: de uma festa, de uma reunião, de um encontro, de uma conversa – formal, informal ou em...off.

NEOMALTHUSIANISMO - por valdir izidoro silveira*

O espírito de Malthus ronda pelas plagas do campo brasileiro. Agora, os arautos do biocombustível, do etanol, que são os mesmos dos slogans “Crescer o bolo para depois dividir”, “Plante que o João garante” e outras enganações, estão de volta. Recentemente um artigo assinado pelo ex-ministro do planejamento da ditadura Antonio Delfim Netto , o “lagartão da soja”, alcunha que os gaúchos lhe concederam pelo Confisco da Soja, onde o ministro decidiu impor, sobre o preço da soja exportada, uma tarifa aduaneira de 30%. O artigo “Malthusianismo” publicado do Boletim da FAEP, onde questiona os “Movimentos sociais com objetivos ecológicos” que se opõem a avalanche do milho e da cana para a produção de biocombustíveis.
De nada adiantou o exministro mudar de partido porque ele continua no mesmo lado; do lado das elites, do lado das multinacionais. Ele só acertou num diagnóstico, aliás nos plagiou, quando reconhece que “a agricultura é o único setor da ec onomia onde milhões de produtores, individualistas e desorganizados, enfrentam uma estrutura oligopolista de compra, o que significa que transferem potencialmente para os consumidores todos os seus ganhos de produtividade”.
Outra afirmação equivocada de Delfim Netto é de que “os ganhos de produtividade do setor agrícola são resultado do desenvolvimento da (...), dos transgenicos (...)”. Os eventos transgenicos atuais, principalmente a soja RR não são mais produtivos pelo simples fato de se lhes colocarem a “vantagem” da resistência ao herbicida glifosato da Monsanto; mesmo porque os ganhos de produtividade são uma característica conferida à soja ou outra cultura pelo melhoramento genético convencional. Mentem quando dizem que os transgenicos são mais produtivos!
É ótimo, para nós, quando o ex todo poderoso ministro da agricultura , da economia e do planejamento da ditadura admite e reconhece, coisa que não o fazia antes, que os agricultores “enfrentam uma estrutura oligopolista de compra”, no caso as multinacionais Monsanto, Syngenta, Cargill, Bayer, etc., que vendem insumos dolarizados, na alta, para os agricultores e compram os cereais em reais na baixo, ou desvalorizados. Qual o mote dessa gente: acabar com a fome; o velho discurso esfarrapado neomalthusianista de que precisamos de mais alimentos porque a população cresce geométricamente. É... infelizmente, os neomalthusianistas estão vivos!


(*) Engenheiro agrônomo, Mestre em Tecnologia de Alimentos.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

ODE A SÃO LUIS / maranhão/ poema de joão batista do lago

Ó tu, leito-mãe dos Tupinambás
Reina dos mares do Sul, sois vós
Vitoriosa, oh! amada Upaon-açu
Carregas nome e cetro de realeza
N’alma saber e virtude de Atenas
No peito o brasão de viva Natureza

Ó tu, São Luís – Ilha dos Amores!
Amada de francos, lusos e neerlandeses
Sois vós o encanto de Arúspice
Profeta da vossa eterna glória e pureza:
- Vosso destino é conservar em si toda beleza
serás deste teu Orfeu a eterna Eurídice

Ó tu, São Luís – Jamaica brasileira
Sou-vos grato pela vida inteira pois
Sabei-vos de muitos ser uma só pessoa
Jamais vos deixaste vencer. Sois guerreira!
Ainda que vos queira estuprar o monstro da modernice
Haverá sempre um filho teu que não fugirá a luta

Ó tu, São Luís – Cidade dos Azulejos
Perdoai o jugo da desgraçada sorte (e)
Tomai por exemplo o Cristo da hora da morte
Perdoai os filhos que vos sangra em realejos
Todos serão defenestrados, enfim, para que
Possamos amar-vos entre ruas e curvas de azulejos

ESSÊNCIAS VERDES MASTURBADAS - poema de benny franklin

Frasco n° 1




Parábolas do mormaço hibernal;
Não mais que o algebrar de longes tráfegos
Crucifixando seivas fluidificadas de Allen Ginsberg
Que, engendradas a este quase-ereto-poema,
Atam-se a fiação da escrita
Para melhor divisar
As Essências Verdes Masturbadas.
Ai! Em pequenos frascos jaza a poesia...
Lágrimas Fêmeas despojadas
Ora desnudas, ora de olhares vagos,
Sobretudo quando estão acuadas
Em oito deprimidas leiras.
Sob viés pontiagudo
As verborragias Junguianas
Enchem sádicos bacios com ardidos remorsos,
Como as faces inominadas de nós
(Tristes sementes pêcas)
Que as trevas matariam
Num frouxo instante

A ÉTICA É A ESTÉTICA DO FUTURO - por celso lungaretti

Os personagens desumanizados de "Pilatos", obra de Carlos Heitor Cony, lembram – até demais! – os arautos dessa nova direita emergente no Brasil, que faz do rancor e do retrocesso sua bandeira. O que parecia exagero literário virou triste realidade.
Quem colocou esta frase em circulação, atribuindo-a a Lênin, foi o genial cineasta Jean-Luc Godard, na década de 1960. Dado aos chistes e ao non sense, Godard pode ter sido ele próprio o autor. Pouco importa. O fato é que sintetiza bem a visão de mundo da juventude mais idealista do século passado. Em 1968 e nos anos seguintes, tivemos as primaveras de Paris e de Praga, o repúdio universal à intervenção dos EUA no Vietnã, a resistência às ditaduras em todos os quadrantes, movimentos os mais diversos em defesa da justiça social e dos direitos das minorias, bem como a revolução de costumes conhecida como contracultura. Ventos de mudança varreram o planeta. Foi um impulso generoso, solidário, irmanando os melhores seres humanos na busca de um futuro digno para a humanidade.Houve, portanto, um tempo em que muitos acreditaram piamente na iminência de uma sociedade na qual os relacionamentos entre os seres humanos, de tão éticos e gratificantes, iriam se tornar a realização da estética no cotidiano. Não precisaríamos mais da arte para sonhar acordados com uma beleza inexistente na vida real. O paraíso seria agora.Depois, claro, veio a reação. E as flores foram sendo, uma a uma, arrancadas. O capitalismo triunfante moldou o planeta à sua imagem e semelhança: competitividade, ganância, desigualdade, parasitismo, guerras inúteis, agressões insensatas ao meio ambiente, consumismo exacerbado, condenação de vastos contingentes humanos ao desemprego crônico e à miséria aviltante, degradação do pensamento, da arte e dos padrões morais.Carlos Heitor Cony, que busca afoitamente outros privilégios mas foi privilegiado com dotes de grande escritor, escreveu em 1974 um romance profético, Pilatos. Mostra como seria um mundo em que os homens não tivessem nenhuma motivação idealista, sentimento nobre ou limites morais. Todas as suas ações visariam apenas à satisfação de apetites e de necessidades primárias. Era um inferno mais assustador que o descrito nas religiões. E tinha tudo a ver com aquele Brasil dos yuppies enriquecidos pelo milagre econômico e das massas anestesiadas pelo tricampeonato de futebol.Os personagens desumanizados de Pilatos lembram – até demais! – os arautos dessa nova direita emergente no Brasil, que faz do rancor e do retrocesso sua bandeira. O que parecia exagero literário virou triste realidade. Há indivíduos que conspiram dia e noite para arrastar o Brasil a uma nova ditadura. Há indivíduos capazes de escrever entusiasticamente em defesa de filmes que fazem apologia da truculência e da tortura. Há indivíduos que se regozijam quando cidadãos exemplares são flagrados em situações equívocas, como se a grandeza do rabino Henry Sobel pudesse ser empanada pela cleptomania e a do padre Júlio Lancelotti, por distúrbios da sexualidade. Demonstram ódio homicida pelos rivais ideológicos, a ponto de se aproveitarem de suas debilidades humanas – quem não as tem? – para instigarem seu linchamento moral. Como Átila e Gengis Khan, só vêem os inimigos como obstáculos a serem suprimidos. Seus textos são um deserto de ideais. Não contêm nenhum sonho, nenhuma esperança, nada que sinalize um mundo melhor. Apenas a defesa encarniçada do status quo capitalista e o combate encarniçado aos que, bem ou mal, propõem alternativas. São contra governos, partidos e pessoas. Abominam a Declaração Universal dos Direitos Humanos. E não têm, sequer, a honestidade de seus congêneres da Espanha, adeptos de Franco, que assumiam abertamente os valores obscurantistas que professavam, ao urrarem “Abaixo a inteligência, viva a morte!”.

AINDA SOBRE MATSUO BASHÔ

enviado por léo meimes:


velho tanque
uma rã salta
barulho d'água

terça-feira, 30 de outubro de 2007

EM MANUTENÇÃO

deveríamos retirar o aviso, já que acabou o que estávamos fazendo, entretanto, alguém postou um comentário aqui. por respeito aos nossos leitores que fazem comentários, o que é muito bom, vamos deixar o "EM MANUTENÇÃO" como matéria. solicitamos, caso queira, que quem postou o comentário envie seu email para o PALAVRAS, TODAS PALAVRAS.

domingo, 28 de outubro de 2007

POEMA - de matsuo bashô

original em japonês:



Furu ike ya
kawazu tobikomu
mizu no oto


tradução de jaques brand:

Há um velho tanque.
Nele um sapo salta.
Ouve-se o barulho disso.



tradução de estrela leminski:


chuá, chuá
coach, coach
tchibum!

CONSILÊNCIA - por janos biro

Resenha crítica do livro "Consilência" de Edward O. Wilson





Consilência é o termo usado por Edward O. Wilson para se referir a uma suposta unidade do conhecimento. Tal unidade do conhecimento, que é a conexão de todas as ciências, seria a única forma de continuar o progresso da ciência. Wilson é uma pessoa que acredita fielmente na ciência, e que não se considera reducionista. Sua proposta, segundo ele mesmo, não é reduzir as ciências a uma unidade comum, mas fazer uma síntese. Essa síntese partiria da matemática, passando pela física, química, biologia e finalmente chegando à sociologia e demais ciências humanas. Elas seriam como degraus numa escada, uma completando a outra, com novas disciplinas servindo de pontes. Não quer dizer que o cientista precisa saber tudo, mas que ele precisará saber como encaixar seu conhecimento dentro da síntese do conhecimento. A filosofia deverá se aproximar da ciência se quiser sobreviver à "nova ordem mundial" do conhecimento humano.O que Wilson faz é usar uma abordagem holista para justificar sua visão de mundo, uma visão onde a raiz de todo conhecimento é a matemática, e todas as ciências deveriam se submeter à análise lógica e objetiva. Ele faz isso com a desculpa de salvar a educação liberal e o meio-ambiente. Os problemas sociais e ecológicos têm ficado piores desde que começamos a ver o mundo como uma máquina, e o que Wilson propõe é uma nova alternativa para salvar a visão mecanicista, mostrando que a visão holista nem sempre vai de encontro ao paradigma cartesiano, mas ao contrário. Wilson é um defensor do iluminismo e do positivismo lógico. Para ele nunca deveríamos desistir de encontrar a estrutura lógica que explique todas as coisas do mundo. As fronteiras das disciplinas seriam por fim derrubadas, porque são convenções. Sem essas fronteiras, expandiríamos nosso conhecimento ao infinito. Mas essa união não pode ocorrer sem critério algum. Ou iremos usar um único padrão explicativo, cognitivo e epistemológico, ou iremos apenas aumentar canais de diálogo entre as disciplinas. É fácil concordar com a segunda opção, porém a idéia da interdisciplinaridade não depende do conceito de consilência, e se a proposta de Wilson é apenas essa então não há nada de surpreendente nela. Mas em alguns momentos Wilson parece comprometido com a primeira opção, com uma espécie de modelo definitivo para o conhecimento. Se levarmos em conta que a consilência não pode prever os resultados da cooperação entre as disciplinas, então a consilência é antes uma sugestão que uma teoria. Ela não pode dizer como as ciências irão se unir, pode apenas sugerir que a ciência pode avançar se essa cooperação ocorrer. Seria preciso um meta-conhecimento absoluto para saber como as disciplinas deveriam se encaixar. Mas não é qualquer síntese que Wilson está sugerindo, ele está tentando provar que encontrou a fórmula mágica para resolver o quebra-cabeça do conhecimento humano. Para Wilson o positivismo lógico só falhou porque não havia conhecimento do funcionamento do cérebro. O projeto teria sido bem sucedido se esses dados estivessem lá. Isso quer dizer, agora que temos esses dados, tudo que precisamos é fechar o vão: os genes criam o cérebro, que cria a consciência, que cria a cultura. É como se ele tivesse encontrado o elo-perdido que nos permite unir todas as coisas e seguir para uma nova era de razão e avanço científico. Empolgado com seu projeto, Wilson ignora alguns problemas filosóficos, superestima os resultados e subestima as dificuldades de tal pretensão. Wilson diz aceitar a potencialidade no lugar do determinismo, mas acredita que é possível prever regularidades com uma precisão cada vez maior, o que lhe dá esperança de um progresso científico rumo à inefabilidade. Ele nunca se pergunta se precisamos realmente disso, nem se questiona se não iremos repetir os erros do passado, criando ainda mais e piores problemas para tentar solucionar os atuais. Para ele, tudo que interessa é a síntese, ele não pensa nem por um momento nas implicações de um sistema de unificado do conhecimento. Wilson apresenta um holismo exagerado, unindo coisas que tem uma conexão muito tênue como se o poder de explicação delas continuasse significativo. É verdade que existem muitos problemas que podem ser resolvidos dessa forma, mas problemas simples podem se tornar complexos demais. A conexão entre biologia e sociologia, por exemplo, pode variar muito. Muitos detalhes de biologia que estão relacionados a assuntos da sociologia não precisam ser levados em consideração para se resolver um problema. Há uma a distinção entre a interação dos objetos de estudo e a interações das teorias. Uma coisa é subsumir a molécula aos átomos, e outra coisa é subsumir a química à física. Também não podemos esquecer que cada área, ainda que não tenha um objeto único, tem um ponto de vista único. Os conhecimentos de uma área, como a ecologia, podem ser usados economistas para justificar certa visão economicista. Enquanto a economia pode ser usada por ecólogos justificar o oposto. Não há como controlar isso. Há uma falsa aceitação da subjetividade. Wilson não aceita realmente a subjetividade nas ciências humanas. Ele só a aceita na medida em que ela possa ser explicada objetivamente. Ele aceita a consciência como uma questão científica apenas porque acredita que podemos descobrir seu funcionamento através da neurociência. Mas talvez a consciência não seja um mecanismo capaz de mapear a si mesmo. Quando tentamos fazer isso, inevitavelmente estaremos usando uma predefinição do que nós mesmos queremos descobrir. Wilson ignora esses problemas de circularidade, ele simplesmente considera que basta um pouco mais de avanço e vamos poder preencher todos os vãos. Isto faz da consilência, quando levada nesse sentido, nada mais que uma proposta metafísica ao estilo de Platão.